Apresentação Projeto COVIDA


A esperança equilibrista
em tempos de pandemia

João Batista de Abreu

Nosso lar interior precisa ser preservado. Escolha pessoas inspiradoras, acesse conteúdos leves e agregadores. Evite o veneno que vem das redes sociais e dissemina o vírus do ódio.

Com base nesses ensinamentos extraídos da internet veio a ideia de propor a experiência de produzir peças radiofônicas dramatizadas que tivessem como pano de fundo a pandemia do coronavírus e a quarentena.

O mês é março e o mundo começa a sepultar seus mortos, chorar a perda de centenas de pessoas das mais variadas idades e origens. A covid 19 irradia-se como nuvem de gafanhotos pelos cinco continentes e chega ao Brasil.

Um grupo de pesquisadores em saúde pública, professores e profissionais de Comunicação Social da Fundação Instituto Osvaldo Cruz (Fiocruz) e da Universidade Federal da Bahia (UFBA) decidiu criar um grupo virtual para trocar informações e experiências de saúde e também organizar-se para combater as fake news, que começavam a disparar mentiras em escala geométrica sobre a pandemia, primeiro com informações negacionistas, depois alardeando falsos medicamentos milagrosos.

Propus então ao amigo e colega Arnaldo Cesar Jacob, diretor de Inovação e Tecnologia da Associação Brasileira de Imprensa – da qual sou conselheiro – que nos engajássemos no projeto multidisciplinar. Foi Arnaldo Cesar quem sugeriu o nome: COVIDA.

Convidei o operador de áudio Marcelo Santos, que trabalhou como prestador de serviços por quase 10 anos no estúdio de rádio IACS, e ex-alunos da disciplina Técnica de Radiodrama, onde dei minha última aula, em dezembro de 2018. Marcelo é um mestre do som, com uma sensibilidade e delicadeza no trabalho de edição que poucos têm.

A adesão foi surpreendente. Todos aceitaram participar, seja como atores, seja como apresentadora ou autores de roteiro. Ao todo contamos com a colaboração de 22 pessoas, dos quais 16 estudaram ou trabalharam no IACS. Gente de todos os cantos. Ex-alunos que moram em Niterói, Itaboraí, Rio de Janeiro, Nova Friburgo, São Paulo, Salvador, Juiz de Fora. Tivemos até a participação de uma atriz que faz curso de pós-graduação na Noruega e passa férias em Barcelona.

As gravações são feitas no computador ou no celular e enviadas para o editor de áudio por e-mail ou whatsapp. A veiculação compreende webradios universitárias, como as da Universidade Federal de Santa Catarina e Universidade Federal de Mato Grosso, o grupo de 200 pesquisadores de rádio e mídia sonora da sociedade de pesquisa em Comunicação Intercom, emissoras comunitárias, o site Bicicleta e Companhia, de Marcelo Santos, e em alguns casos o site da ABI.

Como estamos em quarentena, todo o trabalho é feito a distância. A gente escreve os roteiros em casa, troca ideias pelas redes sociais, escolhe a trilha sonora e convida os donos das vozes. A maioria é amadora, outros ex-alunos formaram-se em Comunicação e tomaram o rumo da arte dramática. Em alguns audiodramas contamos com a colaboração do professor de teatro do Tablado Lincoln Vargas e do locutor noticiarista Ronaldo Rosas, ex-Bandeirantes, Manchete e Rádio Jornal do Brasil. Desde o início a narração dos programas coube à jornalista e ex-aluna Ana Lúcia Morais. Ela foi apresentadora do telejornal da TV Serramar, de Friburgo, onde voltou a morar depois de deixara carreira de professora universitária.

Para respeitar a linguagem dos jovens e as gírias atualizadas, contamos com a ajuda do professor Julius Pessanha, formado em Jornalismo no IACS, que leciona Português numa escola da rede pública na favela da Maré e outra na zona rural de Duque de Caxias. O programa que faz uma homenagem ao professor Muniz Sodré, que se recuperou da covid-19 após 43 dias de internação, teve a participação do dramaturgo baiano Douglas Tourinho, formado em Cinema e Jornalismo no IACS. Um dos roteiristas é Wilson Magalhães, servidor da UFF aposentado como editor de vídeo ex-aluno de Cinema do IACS.

O professor titular de Cinema Tunico Amâncio fez uma figuração chique no programa sobre a república de estudantes. Outro figuração chique coube ao professor de Filosofia da UFF Antonio Serra, ex-diretor do IACS. No programa sobre o Dia dos Pais que homenageia Paulo Freire, Serra lê a frase final do educador pernambucano sobre o prazer de ensinar.

Até o momento 10 audiodramas foram produzidos. Os temas oscilam entre o drama dos jovens na favela, que ficam na dúvida entre a necessidade de trabalhar e o risco de expor os idosos da família, a quarentena na Páscoa, os animais na floresta, a dona de casa aposentada que mora sozinha e sente falta da comemoração do Dia das Mães, o namorado médico residente do Hospital Universitário Antônio Pedro, que surpreende a noiva no Dia dos Namorados, o risco dos profissionais de saúde expostos ao contágio no cotidiano do ofício, a dúvida dos estudantes do interior que dividem um apartamento no Catete e ficam à espera da volta às aulas, a angústia dos artistas de circo acampados numa pequena cidade no norte de Mina Gerais, às margens do Rio São Francisco. Afinal, hoje tem espetáculo?

Enfim, a vida segue com ou sem pandemia, com ou sem quarentena. Um dia vai passar, só não sabemos quando. Nossa receita sonora é tratar da saúde mental das pessoas num momento tão triste para o país e preservar a fantasia. Afinal, sonhar não custa nada. Como diz o título de um dos audiodramas: é preciso cultivar a esperança equilibrista.


Abaixo a relação de todos os colaboradores da série:

Ana Lúcia Morais, Alda de Almeida, Antonio Serra, Caio Paranaguá, Ciro Pedrosa, Cristal Dansa, Douglas Tourinho, Gabriel Horst, Jessica Rocha, Julius Pessanha, Lenita Lopez, Leonardo Bígio, Lia Meirelles, Lincoln Vargas, Lucas Ronconi, Luiz Ferraretto, Luiza Mendes, Marcelo Santos, Maria de Fátima Assunção, Nair Prata, Ronaldo Rosas, Sabryna Teixiera, Samil Chalupe, Thiago Chiappetta, Tunico Amâncio, Wilson Magalhães


João Batista de Abreu é professor titular (aposentado) do Departamento de Comunicação Social da UFF e ex-aluno do IACS. Fez curso de especialização em rádio e produção de peças dramatizadas organizado por Ciespal e Radio Nederland Training Centre, em Quito, Equador (1984).

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